A Partir do Espelho - Texto de Cesar Kiraly para a individual de Jozias Benedicto


1. As últimas iniciativas do Jozias Benedicto são profundamente marcadas pelo serialismo automático. Ele se propõe curiosa disciplina de criação seguindo regras explícitas. Apesar de colorida e solar, há algo de monacal na rotina escolhida. Nas performances, faz cercar o acaso com princípios extraídos da história da arte ou da literatura, para então se permitir associar com os termos da referência. Não se trata de se desfazer das inibições para a expressão inconsciente, porém de variar, sob olhos, nas regiões da interioridade estabelecidas pelo convênio com outras obras de arte.

2. Nesta individual, Jozias escolhe duas referências como âmbito dentro do qual a sua escrita espontânea precisa funcionar. A primeira é o On The Road do Jack Kerouac e a segunda é o Através do Espelho e o que Alice lá Encontrou do Lewis Carroll. A proposta demanda preparação, o artista, como um atleta da apnéia, habita o primeiro livro, sob múltiplos tempos de leitura. A feitura acontece numa performance, em que escreve tudo o que lhe ocorre sob evocação do texto. A dinâmica dura mais ou menos duas horas. A escrita acontece com tinta escura sobre telas claras preparadas. O resultado conta com relevos leves, do acréscimo diretamente do tubo, e as pequenas telas são distribuídas em linha a envolver a galeria de ponta à ponta. As excedentes crescem em colunas a duplicarem as interrupções do espaço expositivo.

3. A galeria inicia vazia. Jozias trabalha em um dos cantos numa mesa de escritório. Um assistente retira as telas prontas, escritas, e as coloca na parede sequencialmente. A ele também cabe a função de alimentar a atividade de materiais. No canto oposto há um cavalete musical. A sonoridade emitida ricocheteia nas paredes e imediatamente cria atmosfera feita de inversões da voz do Kerouac e de temas musicais que compõe a vida interna do artista. Conforme persiste, os restos dos tubos se acumulam. Nos outros dias, um televisor ocupará o lugar do performance, repetindo os registros.

4. A memória do Jozias funciona como um arquivo, no sentido mais arcaico possível. Assisti-lo é imaginar a dinâmica associativa da qual temos apenas o acabamento. Porque é importante saber que a experiência é feita dos muitos momentos em que ele leu a obra e dos que ouviu sobre ela, da aura da beat, além das composições não declaradas. Apesar de todas as indicações conceituais, há muito que não é contado, do que se perde, até mesmo, nos depósitos afetivos de quem escreve. On The Road é uma etiqueta. Mas é sobretudo um mergulho na oxidação da alma.

5. A escrita imergida em Jozias / mergulhado em On The Road, com todas as implicações que, intencionalmente, restam misteriosas, é toda feita de trás para frente. A circulação com um espelho, por assim dizer, colocaria as letras nos seus devidos lugares. O defensivo é remeter à Alice. Mas é também uma forma de tornar a narrativa do Kerouac menos masculina. A galeria se torna a província da inversão. Os avisos podem ser lidos desde o lado de fora, uma vez que Jozias escreve como reflexo nas paredes vistas por quem chega. Na verdade, a relação com a escrita do avesso é mais como um’A Caça ao Snark. Isso porque, pequeno, era uma forma de se trancar dentro de si / menos para não poder ser decifrado / Não foi o caso de inventar códigos, e mais de vivenciar a reversão intrínseca à vida comum, ganhar algum tempo. Há saídas, de todos os lados, para se inverter o habitual / Em que aquilo que já se viveu se amalgama com as obsessões, no caso de se ter alguma. Jozias esqueceu que caçava. Até redescobrir a prática, toda completa, sem nem ao menos praticar. Se o Snark no Carroll não é bem alguma coisa, mas algo que se busca, tão pouco caçar seria evidente.

6. On The Road é um livro um tanto automático. Os acontecimentos se sucedem sem que os agentes negociem como os seus motivos. Aqueles que tergiversam são os mais laterais, como Carlo Marx e as mulheres. O estilhaçamento interno dos homens só pode ser vivenciado em atividade, na estrada. As dores são administradas pelo esvaziamento subjetivo. Eles não caçam o Snark, Carroll suspeitaria. Os momentos importantes acontecem quando seduzidos por algo além de si mesmos como uma morbidade, a necessidade de descrever como toca um músico de Jazz ou os movimentos de um carro em fuga. Por essa razão é que partir do espelho é tão importante. Ele estabelece a passagem do automatismo irreflexivo por aquele mediado por razões. A letra à máquina do Kerouac é capturada pela assêmica impura do Jozias. Não é preciso que algo tenha se passado ou o motivo reconhecido. Há algo anômalo que pode ser entendido, ainda que dependente de um espelho quebrado.


Cesar Kiraly / curador da Galeria Ibeu / professor de Estética e Teoria Política no Departamento de Ciência Política da UFF