20 maio 2013

Conversa entre Fernanda Lopes e Paula Huven


Conversa – Paula Huven e Fernanda Lopes


O que nos une, o que nos separa [1] (2011/2012) é um dos trabalhos mais recentes da mostra  e dá título à exposição. De alguma maneira, boa parte dos seus trabalhos se apropriam ou entram na lógica dos materiais e processos fotográficos. Em O que nos une, o que nos separa, parece que o disparador é a utilização de filmes vencidos há seis anos. Você pode falar mais sobre desse trabalho e da sua relação com a fotografia?

Os materiais e dispositivos fotográficos têm mesmo uma força grande nos meus trabalhos, são o início da engrenagem e definidores de todo o processo. O que nos une, o que nos separa só foi pensado porque haviam esses filmes vencidos guardados e, curiosamente,  eles venceram exatamente no ano em que me mudei de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro. Somente quase seis anos depois disso resolvi usa-los para fazer esses retratos. As relações com as pessoas fotografadas se desenvolveram enquanto os traços desse mesmo tempo eram depositados nos filmes vencidos. E o filme vencido tem uma característica muito especial: ele funciona como se fosse se revelando naturalmente. Mesmo antes de ser sensibilizado à luz, o tempo age também sobre ele. Assim, nestes retratos, essa passagem do tempo modifica tanto a sensibilidade do filme, quanto a minha relação com essas pessoas fotografadas. Foram amizades feitas na nova cidade.

A ideia de fazer esses retratos surge como uma espécie de licença para entrar nas casas das pessoas. Eu sentia falta dessa convivência mais íntima, de ir às casas dos amigos. Em Belo Horizonte isso era uma rotina, já no Rio as pessoas se frequentam muito mais na rua. Eu me convidava para uma visita e para lhes fazer um retrato, mas esse retrato acontecia como uma pausa no encontro, um momento solene. Se por um lado foi a fotografia que me levou até ali, ela também nos distancia, nos une e nos separa. A câmera de médio formato, colocada em um tripé entre nós, e a longa exposição afirmam a presença do dispositivo fotográfico e intensificam esse momento de feitura dessas imagens. Costumo usar a expressão “momento fotográfico” ao invés de instante quando falo dos meus processos, porque minha tentativa é justamente colocar em jogo esse momento em que a imagem fotográfica é feita. É grandiosa a simples troca de olhares através das lentes, e esses 15 segundos intensificam esses olhares – para si, para o outro, para o dispositivo. A potência da fotografia, para mim, vem deste momento, de alguma coisa que a imagem não mostra mas que, no entanto, está ali - a terceira margem do rio.

Em outros trabalhos, o dispositivo fotográfico também define o processo. Relações [2] (2007-8) foi feito com uma câmera Polaroid básica. E acho que o trabalho, a troca de retratos nas relações triviais pelo bairro, só poderia existir assim, com o objeto-imagem único e a revelação da imagem em instantes diante dos olhos dos fotografados. E mesmo em Encontro com autorretrato [3] (2008) essa afirmativa do dispositivo aparece de outra maneira, abrindo brechas para questões sobre a representação e relações entre pintura e fotografia. Ou seja, de alguma maneira fala do processo de se fazer imagem, em especial retratos, e desse embate sujeito-imagem.


O que nos une, o que nos separa e Relações são trabalhos que representam o arco temporal que essa exposição abarca: 2012–2007. Apontam também para ideias que são muito caras à sua produção, e que parece se localizar não nos extremos (eu ou você) e sim no meio do caminho (no espaço entre eu e você). O que te interessava nessa relação com o outro naquele momento em 2006 e o que interessa hoje? O ponto de vista ou maneira de tratar esse interesse mudou? Esse “entre” mudou?

Relações foi feito logo assim que cheguei no Rio, a vida na nova cidade reluzia em cada pequena coisa, mas eu mesma não conseguia ainda perceber minha identidade nesse novo lugar. A troca de retratos, com a câmera Polaroide, respondia bem a esse novo entendimento. Eu amava o Leme, bairro onde morava, e sempre gostei muito desses afazeres cotidianos. Eram aquelas minhas relações cotidianas na cidade e foi um trabalho mesmo de reconhecimento. Ser vista pelos olhos dos outros, para se ver - acho que esse é um dos jogos que o retrato instaura. Com a Polaroid, além da maravilha de ver a nossa imagem aparecendo gradualmente, tem a unicidade do objeto, que colocada nesses momentos triviais talvez remeta justamente para esse espaço de importância entre eu e você - olhante e olhado, alternada e simultaneamente.

Em O que nos une, o que nos separa, mudam as circunstâncias e o dispositivo, mas o interesse é o mesmo: criar encontros através do momento fotográfico. Fotografar com uma câmera naturalmente mais lenta, esticar a exposição fotográfica o máximo possível, usar tripé, estar dentro da casa de um amigo, são fatos que alteram o processo, acho que o intensifica, aprofunda o que já pairava no primeiro trabalho. Em Relações pela presença dos meus retratos, feitos pelos comerciantes, o retrato como troca de olhares fica explícito, já no outro, a força está na sutileza, nos tempos sobrepostos dos filmes vencidos, da longa exposição, nas janelas atrás das pessoas ao invés do movimento da rua.

O espaço entre eu e outro é diferente, mas talvez não. O interesse é usar a fotografia para percorrer esses espaços, e o retrato está justamente nesse espaço entre eu e o outro. Em o que nos une, o que nos separa,  inclusive, apesar da maior intimidade com os retratados, talvez a distância tenha se afirmado ainda mais, pelo processo e pelo dispositivo. Nos dois trabalhos uso a fotografia não só para produzir uma imagem, mas para lançar esses olhares entre eu e as pessoas, entre elas e a câmera, e consequentemente entre elas e si mesmas, e eu mesma. Esse “entre” muda não só de acordo com as relações prévias mas com o método que se propõe para a fotografia.


Insensíveis [4] (2012) é o único trabalho em seu portfólio que não traz a figura humana. Pelo menos não de maneira direta. Diferente de outros trabalhos também, não chega pronto na exposição. É um objeto que existe em exposição, enquanto é folheado e cada pessoa vai tentando ler e construir suas próprias paisagens a partir do que vai lendo. E mesmo lendo o mesmo texto, cada paisagem vai ser diferente da outra. Você pode falar mais sobre isso?

Insensíveis está, de certa maneira, muito ligado a O que nos une, o que nos separa . É um livro-objeto em que eu descrevo algumas fotografias que não fiz, durante o mesmo período em que os filmes ficaram guardados vencidos: um momento de hiato na minha produção. Percebi que estas fotografias que eu vi mas não fiz, também não foram esquecidas. Este período de hiato foi preciso, necessário, e talvez mais frutífero que a produção em si. Acho que eu não fotografava porque também queria estar livre para poder esquecer, uma suposta leveza livre da lembrança. É muito mais difícil esquecer uma imagem, sobretudo quando se fotografa. Acho que o momento é impregnante. Não fotografar era a possibilidade de estar livre dessa lembrança. Mas é claro que existe a lembrança além da imagem, e dela não me livrei. Então esse livro traz essas imagens que eu vi mas que não foram feitas e a palavra é a forma ideal de mostrá-las, pelo seu deslimite. Cada leitor fará sua imagem que nunca será a mesma que eu vi. De alguma maneira, então, me libertei. E relendo agora, minha resposta, achei curioso o jogo de palavras livrei x livro. Não me livrei da imagem, no livro.


De quando a quando foi esse hiato?

Esse período foi entre o trabalho Relações, feito em 2007 e O que nos une, o que nos separa, em 2011-2012. Quatro anos que foram realmente necessários para eu olhar para o que tinha sido feito, pensar, respirar, desistir, resistir e insistir. Me sentia solta, a partir da mudança de cidade (de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro), livre. E a vida comum - trabalhar, fotografando para o jornal, ir a praia, andar de bicicleta, sair, aproveitar a cidade - tomou todo espaço, sem vontade de pensar nem de produzir coisas mais elaboradas. Com o tempo aquela angustia por produzir chegou, e chegou junto com a maternidade.

Essas fotografias insensíveis são mesmo coisas que eu vi, quis fotografar, mas não estava com a câmera. No mestrado na UERJ, cursei uma disciplina maravilhosa do Ricardo Basbaum, então tínhamos que produzir algo em torno dos exercícios da escrita que fizemos e de nossa produção. Eu fui buscar no meu arquivo alguma coisa, e fiquei lá remexendo muito tempo, cheguei a produzir uma série com esse material de arquivo, e depois percebi que esse momento de não ter feito nada foi absolutamente importante. Daí começaram a vir essas lembranças, do que não havia sido fotografado.


De alguma maneira retrato e paisagem, as duas categorias clássicas da pintura e, depois, da fotografia, têm suas fronteiras borradas na sua produção? Re interessa lidar com essas ideias clássicas de retrato e paisagem?

Meus trabalhos em fotografia são jogos, proposições que colocam as pessoas em determinadas circunstâncias. A expressão “figura humana” já traz a “pessoa transformada em imagem” – é essa passagem que me interessa. Meu fazer fotográfico investe nesse embate sujeito-imagem. Os processos dos trabalhos criam relações entre eu e as pessoas, entre as pessoas e a fotografia e, acredito, que entre elas e si mesmas. Esses diálogos me interessam, acho que além a “figura”. Voltamos para o espaço “entre”, que você disse na outra pergunta. Tudo está nesse meio do caminho entre “eu e você”.

E me interessa bastante lidar com essas fronteiras retrato-paisagem, pintura-fotografia, mas estou começando a caminhar agora sobre esses limites. Embora o encontro com autorretrato já traga a pintura em si, acho que é mesmo um começo. Não é à toa que a paisagem, no meu trabalho, está começando a aparecer através das palavras, espero que em breve apareça de outras formas, ando pensando nisso.



Rio de Janeiro, Maio de 2013


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[1] Série de 10 retratos feitos em longas-exposições [15 segundos], utilizando filmes vencidos há 6 anos – o mesmo tempo em que os laços afetivos com as pessoas fotogra- fadas se formaram. Os retratos foram feitos em visitas às casas das pessoas, sempre em frente às janelas, aludindo a uma sensação relativa ao Rio de Janeiro de que as pessoas aqui frequentam pouco as casas umas das outras devido à convidativa paisagem externa da cidade.

[2] Em “Relações” (2007-8) houve uma troca de retratos, feitos em Polaroid, entre mim e os comerciantes em situações cotidianas pelo Leme, bairro onde morava logo quando me mudei para o Rio. As 19 duplas de fotografias são montadas em um único quadro.

[3] Em Encontro com autorretrato a artista registra em fotografia seu próprio encontro com sua representação, em pintura.

[4]“Insensíveis” é um livro-objeto que trata do perdido, do inapreensível, composto também por algumas imagens narradas, cenas vistas, que escaparam da eternização pela fotografia, mas permaneceram na memória. Essas imagens trazidas pelas palavras aparecem inscritas em molduras e ordenadas como em uma suposta narrativa – a narrativa das imagens que não foram feitas enquanto os filmes envelheciam na geladeira.