Clippings Patrizia D'Angello



Release - Patrizia D'Angello

Autorretrato com Burka | Pintura (2012)


Patrizia D’Angello, em sua 2ª individual no Rio, apresenta na Galeria Ibeu a mostra No Embalo das Minhas Paixões. Numa espécie de performance-paixão auto-documentada em pinturas, desenhos, fotos e projeções, a artista  estabelece um forte diálogo com a História da Arte e com a produção de imagem dos meios de massa, tornando-se, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da própria poética. Nesse processo, problematiza o corpo e os papeis do feminino ao longo da história e sua reverberação nas sociedades contemporâneas, bem como os limites de sua própria identidade, o que transborda e o que não está.

Para Ivair Reinaldim, curador da exposição: “Num momento em que nossa fisionomia é constantemente capturada por grande quantidade de dispositivos técnicos, em que o acúmulo excessivo de imagens registradas parece não mais fundar um repertório coerente ou uma real experiência visual (para além de uma massa imprecisa de arquivos infindáveis), Patrizia D’Angello – qual Narciso frente a seu atraente espelho – apresenta em sua exposição individual um amplo conjunto de pinturas e fotografias cujo mote principal é sua autorrepresentação. Em No Embalo das Minhas Paixões retoma o procedimento de sua Olympia, referência direta tanto a uma das obras mais emblemáticas de Édouard Manet quanto aos estratagemas da representação do feminino pela arte, ampliando aqui sua investigação através da eleição afetiva de alguns interlocutores, como Diego Velázquez, Andy Warhol, Paula Rego, Cindy Sherman, Nan Goldin e Shirin Neshat, artistas e obras com quem propõe constituir um fértil diálogo. O que une essa variedade de discursos e visões de mundo, em suma, é a presença constante da imagem da artista em todos os trabalhos expostos, retratada nas mais diferentes situações, das cenas retóricas às atividades cotidianas, e a partir de um imaginário que lhe é bem particular. Nesse processo, tais imagens deixam de ser Manet, Velázquez ou Sherman para tornarem-se, finalmente, legítimos D’Angello”.

Patrizia D’Angello, vive e trabalha no Rio de Janeiro, formada em Artes Cênicas pela Uni-Rio, em Moda pela Cândido Mendes e com diversos cursos livres na EAV - Parque Lage. Entre as principais exposições estão: Novíssimos 2010 (Galeria Ibeu RJ), SAMAP (Casarão 34, João Pessoa PA 2010/2011) e Banquete Babilônia (individual Galeria Amarelonegro RJ 2011). Indicada ao Prêmio PIPA 2012.



PATRIZIA D’ANGELLO - No Embalo das Minhas Paixões
Curadoria: Ivair Reinaldim
Abertura: 25 de setembro de 2012 (terça-feira), às 19h
Exposição: 26 de setembro / 19 de outubro
Horário de visitação: segunda a sexta-feira, das 13h às 19h
Endereço: Av. N. Sra. de Copacabana, 690 2º andar - Rio de Janeiro
Tel.: (21) 3816-9473 

No Embalo das Minhas Paixões - Individual de Patrizia D'Angello


Conversa de Ivair Reinaldim com Daniela Seixas






















Ivair: Ao mesmo tempo em que a aparência das obras expostas parece sugerir uma apreensão de simplicidade de gestos e associação direta entre seus elementos, a experiência sensível das mesmas reforça a ação exaustiva e também a delicadeza de procedimentos que lhes deram origem. Como essas "tarefas rarefeitas" se materializam e são incorporadas em seu processo? Tanto a relação com a linguagem quanto a prática do desenho parecem nortear sua produção como um todo. De que modo estas duas instâncias, escrita e desenho, tornam-se importantes em seu processo de trabalho?


Daniela: Posso dizer que essas tarefas “impossíveis” são o próprio processo, por isso acabei resolvendo por fim acolher a exposição no nome Tarefas rarefeitas.

A exaustão vem junto com a tentativa e a impossibilidade. A impotência para mim é bonita e sutil. É sobre minha escala diante da noite, do deserto imaginado, de um pequeno inseto ou de uma folha de papel.

O peso de uma nuvem de pedra cabe na palma da mão (trabalho Precipitação). Por isso importam essas incoerências soltas pelo mundo, quase bobas. O disfarce das palavras, das atmosferas entre eles e também o ato de desenhar. O desenho que anda por aí é como o ímã de tudo, da vibração dos poros e das impotências inúteis: como a de não ser capaz de ultrapassar um papel, chover pelos poros ou inverter a gravidade de uma palavra.

Chamo de tarefas pois são uma incumbência de “tomar conta do mundo” e isso pode ser exaustivo. E a partir de então qualquer evento passa a ser igualmente importante, uma formiga atropelada ou uma tempestade solar ou uma palavra que não cabe em si. Parece obvio, mas a escala dos acontecimentos pode se modificar a todo instante e surpreender.

Gosto de pensar na ideia de discreta vigília, pois é uma ação frágil e radical. É bem provável que esse seja o procedimento importante. A materialidade é essa sensação, passando por articulações muito próximas entre a necessidade de desenhar e escrever.

Cada um dos trabalhos é uma tentativa de devolver a provocação do silêncio das palavras e do pensamento-desenho, que logo passa e por isso mesmo continua e continua de diferentes maneiras.