11 junho 2012

O mundo em camadas - Texto crítico de Fernanda Lopes para a individual de Polyanna Morgana


O mundo em camadas



"O mundo é o que se vê de onde se está"
Milton Santos


Quase diariamente, ela percorre os 35 km que separam Taguatinga de Brasília. Não é a única a fazer desse deslocamento uma rotina, e nem essa é uma dinâmica nova na história da região administrativa do Distrito Federal, fundada em 1958. Foi nos anos 1950 que operários (incluindo seu avô) se deslocaram de todo o país para aquela região para construir a nova capital. O otimismo e a esperança que invadiram o Brasil fizeram aqueles homens e suas famílias acreditarem que era possível começar vida nova ali, naquela cidade que era erguida por eles no meio do nada. Mas não demorou muito para a especulação imobiliária tirá-los do projeto de desenvolvimento que Brasília representava, fazendo com que fossem alojados em regiões fora do desenho da capital, criando as cidades-satélites, como Taguatinga.

E é um corpo, o da artista, entre tantos outros possíveis nesse deslocamento, o ponto de partida da instalação sonora PolyTati Representações LTDA: life in concert, Vol. II que Polyanna Morgana apresenta em sua primeira exposição individual, na Galeria Ibeu. O espaço expositivo é ocupado por três painéis. Em dois deles estão pinturas de mapas – em um o de Brasília e no outro o de Taguatinga. A paleta obedece às cores observadas na paisagem de cada uma das cidades. Assim, a paisagem de Brasília, como parte da herança arquitetônica moderna, é reconstruída pela artista predominantemente com as cores branco, cinza (em referência ao concreto) e verde (da natureza). Já Taguatinga, que possui outra relação com o espaço urbano, é representada por uma paleta de cores mais diversificada e vibrante, semelhante às cores das cidades do interior do Brasil. O terceiro painel, de coloração bem mais neutra, remete à Estrada Parque, uma das vias de ligação entre Taguatinga e Brasília. Nos três painéis foram instalados alto-falantes em diferentes alturas, reproduzindo a paisagem sonora distinta dos três lugares. Em Taguatinga, há o som de comércio popular, buzinas, pessoas falando alto; a Estrada Parque possui um som de via expressa e Brasília possui uma paisagem sonora típica, onde se escutam passarinhos, carros ao longe e pessoas conversando à distância.

Esses mapas visuais e sonoros são uma das muitas representações possíveis de cada um desses lugares, uma vez que essas imagens têm como ponto de referência o corpo da artista e a sua relação diária com o espaço. Vem também da experiência pessoal o nome do trabalho. PolyTati Representações Ltda. é o nome do escritório do pai da artista em Taguatinga e tem esse nome em homenagem as duas filhas – Polyanna e Tatiana. Já o termo “Volume II” remete à representação do percurso, uma vez que o circuito em si, enquanto está sendo feito, é que deveria ser considerado o “Volume I”. Assim como em trabalhos anteriores, como a série Mapas de Percurso – onde a artista caminhava pela cidade e depois construía representações subjetivas desses percursos –, é no corpo da artista que o trabalho começa. Mas aqui, como em Edifício Morada Provisória I (2009-2012), o corpo do outro ganha espaço.

Em um momento quando programas de imagem, números e coordenadas nos dão a ilusão de ter acesso absoluto do mundo quanto mais nos afastamos dele, Polyanna Morgana traz o conhecimento do mundo para o território da pele. A pele dela, uma vez que o trabalho se constrói a partir de suas percepções dos lugares. A pele do espectador, que é incorporado à obra, convidado a caminhar pelo ambiente e a construir sua própria paisagem a partir dos indícios apresentados pela artista. E na pele da cidade, que nesta montagem é incorporada ao trabalho com a paisagem sonora e de imagens urbanas que invade o espaço expositivo pelas grandes janelas descobertas.

O olhar das máquinas vem construindo com o passar do tempo um mundo que cada vez menos nos reconhecemos como parte. Um mundo distante, no qual somos incapazes de interferir. A artista traz o mundo de volta para a escala humana, aquele que vemos “só” até onde o corpo alcança. O horizonte deixa de ser o das máquinas, que pretendem dar conta do mundo, para ser o do ser humano, limitado e parcial, que se conforma com o que vê pelas ruas por onde passa. Ela assim parece nos dizer que o mais profundo ainda é a pele.


Fernanda Lopes
Rio de Janeiro, Junho de 2012