25 setembro 2017

A Intimidade é uma Escolha - Maria Fernanda Lucena


Na edição de 2016 do Novíssimos, Lucena apresentou um conjunto de peças de acrílico que encapsulavam objetos da vida doméstica, afetivos, e a eles dava a companhia de pinturas, no suporte: janelas pelo lado de fora, moradores de Copacabana, jarros com plantas etc. Por essas peças foi premiada com a exposição para a qual estamos a convidar. Há alguma continuidade entre a obra referida e a presente individual, mas o sentimento maior é de mudança. Em uma trajetória já consistente, a artista consegue dar um importante salto de originalidade, aproveitando virtudes e indo além do conforto. A Intimidade é uma Escolha, com curadoria de Cesar Kiraly, aborda a experiência na vida das pessoas, em sugestão, de proximidade não declarada, com a própria vida da artista. Esses personagens não estão mais em um relicário, não há mais asfixia, e sim ampla paisagem de afetos circulando. Nesta, tem-se a galeria completamente coberta por retalhos associados, sob lógica de colagem, mantidos juntos por costura. Estes foram obtidos nos tecidos descartados nas oficinas de estofamento doméstico. Ela aproveita o material desgastado, vivido, por assim dizer. Podemos, quiçá, reencontrar pedaços de nossas próprias vidas, ao mesmo tempo, íntimos e impessoais. Lucena o faz de modo a nos dar a acidentalidade das escolhas cotidianas, e, depois de tais intervalos oníricos, sobre a composição, revela-nos retratos de pessoas, cujo instante de vida optou por mostrar. Se, por um lado, é matéria desgastada, por outro, consegue as fazer despertar em entusiasmante vigor. São pedaços de vida, e todas as vidas são bem parecidas, donde o desgaste, mas colados de modo a evidenciar a singularidade de cada existência, daí o vigor. São casais com filhos, sem filhos, pessoas solitárias, com seus bichos, afundadas em seus sofás, retratadas sob mesma técnica, além de estarem pictoricamente enraizadas no suporte que as envolve. Lucena consegue, de maneira surpreendente, abordar com delicadeza o mais importante tema do nosso tempo.


Cesar Kiraly, curador.





08 agosto 2017

Paisagem, o Onírico dos Dias | Texto de Cesar Kiraly para NOVÍSSIMOS 2017



Paisagem, o Onírico nos Dias
Ensaio Crítico


1. A convenção é que se os tenha bem separados. Viveríamos no estado desperto e o mundo dos sonhos seria uma província selvagem, repleta de perigos, preço que pagaríamos por estarmos nos recuperando. Ser poupado do ataque das imagens noturnas seria a maior recompensa de uma consciência tranqüila. Não tê-la é ser desmembrado pelos próprios fantasmas, na melhor das hipóteses, porque a derradeira tortura seria a insônia. Nela a distinção entre realidade e sonho começaria a se dissolver até o desterro. No delírio haveria lógica privada para a interação das imagens e nela não poderíamos interferir. Acordados seríamos um tanto mais soberanos e os hábitos seriam bons aliados. No sonho estaríamos à mercê, até mesmo para sermos surpreendidos com delícias e onipotência. Se delirantes, a invasão dos bárbaros começaria e não teríamos onde nos esconder do que o mundo fez de nós mesmos.

2. Acha mesmo certo disputarmos? / Não estamos disputando, Disputaríamos pelo quê? / Pela perspectiva, Você quer falar como se fosse um homem que a vê / Ora, e quer falar como uma mulher que se percebe / No mínimo temos uma disputa pela perspectiva / Acho que tenho uma vantagem sobre a sua / Por que diz isso? / Porque se cindirmos, será do meu lado a licença / Sim, porque sempre esteve, Donde reconhece o desnível / Se eu partir não seria a mesma coisa? / Acho que se ficasse do lado de fora por alguns minutos, talvez já fosse algo / Daí eu abdicaria de mim? / E não teria a alegria imediata de ser o lobo das minhas ovelhas / Se eu dissesse que nada sei dela e que ela não sabe que a vivo? / Eu diria que ela está presa, que se permite ver apenas na dissipação / Daí eu admitiria que a fiz desde as coisas que me são mais queridas / Ela que há muito tempo não existe / Mais queridas e não a entendo / [...]

3. À sala, como qualquer outra, muito livros, móveis de madeira escura, um tapete, nada aparentemente fora do lugar, nota-se que há criança, por um boneco de pano comportado no sofá. Mas só por isso, criança educada. A estranheza é pela janela aberta, em uma noite insanamente fria. Se se atenta, há fita adesiva nas frestas das portas que dão para os quartos e mais outro tanto na de conexão da sala de estar com a cozinha. O pó se acumula sobre a imagem / de novo, tudo cinza. O utensílio doméstico cuidadosamente feito vazio e uma mulher repousa nele a cabeça, como se buscasse o contraintuitivo.

4. Essas instâncias não aparecem tão separadas, como se poderia esperar. Sem termos que decidir quem é mais abrangente é o caso de admitir a densa composição onírica das nossas imagens, da nossa linguagem. Isso quer dizer que da experiência fazem parte nossos hábitos, e também suas inversões. A convenção de diferença entre a realidade e o sonho pode nos divertir e confortar – a literatura é bem dependente disso –, mas ao mesmo tempo nos faz perder a continuidade entre os âmbitos e a disponibilidade das imagens à invenção. Assim é o caso de ver com prudência a textura comum das associações e a plena disponibilidade dos sentidos a serem torcidos. Se o delírio é pleno de arbitrariedade, há também a alucinação e suas presenças camufladas em camadas cúmplices ao visível. A paisagem que nos abriga e a qual assistimos é habitada pelo onírico embebendo os dias. Não estamos preocupados com os dilemas de estarmos acordados ou dormindo, se nosso mundo é o sonho de alguém. Nada disso nos importa. A questão é pelo rico amalgamado no curso dos dias, de modo a termos aproximados viver e sonhar.

5. Ele transita algo impressionado / nesses tempos se voltava a falar em antropofagia / tinha-a percebido idêntica a uma das puritanas devoradoras. À mais feinha, mas isso não contaria. Os mesmos cheios cabelos louros, se deixados incontidos, o mesmo rastro sobre a cabeça, se furiosamente trançados. Ela o interrompe e comenta antes sobre as bases de concreto, em violenta insensibilidade ameríndia, e depois das figuras geométricas progressivas como escadas etc. Como? – ele argüiu. Sim, rolantes à passagem da vida.

6. Não há dificuldade, chão é chão, mundo é mundo. Caminha-se empurrando o chão para trás, na direção do fundo. Lá onde tudo é claridade, o tempo passa cinza, como poeira repousada nos móveis / sem perder, contudo, a capacidade de fazer sombra para depois do corpo. E a luz que o deixa visível é uma outra. Ele caminha à beira, por ter infamado tantos nomes. Ainda que seja apenas uma pessoa como as outras. Daí nada treme. Ontem Emily Dickinson dizia não poder acompanhá-lo. Espero que não tenha ficado magoado. Ela temia que aquela parte, da cinza, fosse vida / ao que balbuciava não ser área permitida. Uma espécie de preleção escapava dela, de que o futuro era só dor e o passado também. De que teria algo de vazio. Daí achou melhor ir sozinho.


7. Um dos efeitos de não se lidar com a composição onírica da experiência é o desenvolvimento de conjuntos estanques de imagem e linguagem. Isso pode ser percebido ao se lidar com extrema disponibilidade à inversão, ao se encontrar o onírico legendado [Aqui há Onírico] e a exigência de secura e limpidez nos assuntos concernentes ao mundo desperto. O resultado não é a delimitação dos campos, porque não é possível fazê-lo, se estivermos certos, mas a insensibilidade acerca da imagem e da linguagem. Pode-se, até mesmo, usar a gramática factual para veicular inversões oníricas, sempre foi a principal estratégia de credibilidade da utopia; donde não há razão para que a factualidade não esteja envolta pelo contraintuitivo. A arte contemporânea não pode deixar de procurar distinções, não pode sacrificar a depuração do gosto. A legenda é tão somente a legenda e não é porque a seta aponta para o mundo que se trata de mundo e não é porque tem tom de sonho que é sonho.

8. A questão não é eu não saber onde estava, ou de me aparecerem como paisagens urbanas. O mais importante é que eu me encontrava em tal estado de perdimento, que nenhum daqueles postais me dariam o senso de pertencer. Lembra aquele livro do meu avô? Aquele que escolhi dar de presente. Então, havia um postal dentro dele. Nada escrito, só o postal. Eu estive ali. Naquele papel velho, esquecido dentro de algum lugar. Era isso que queria, achar uma imagem da vida passando, sem que fosse dissimulado o vazio. Que por mais esforço que fizessem, ninguém poderia dizer ter estado ali com ninguém. Aquele era o meu lugar, só eu estive ali. Como eu saberia? Porque aquele espaço em branco, sem dono, só poderia ser o meu.

9. Sempre tive medo de ser arrastada para morar numa casa em obras. Tenho uma tia que viveu e morreu assim, sempre numa casa em obras. As casas eventualmente entram em obras. Mas há casas que trazem a obra nelas. Isso acontece quando alguma incauta se permite morar antes de acabada. Uma maldição passa a fazer parte da casa e a obra nunca mais sai dela. Não há fantasmas. As coisas são feitas dos seus acidentes, como as pessoas, e esses se expressam quando se presta atenção neles. Uma casa em obras fala a sua ruína. A própria obra assiste a sua ruína. Se prestar atenção, verá isso. Uma casa presa nela mesma, se percebendo perder paredes e telhados. Os arruinados respiram todo aquele pó de cimento. A visita só tem a parte visual da ruína. Ela é só de quem a vive, como se estivesse dentro de um vidro.

10. Não sei por que soa estranho. Assertivamente assim, apenas uma vez. Estávamos com uma cadeira de três pernas, cujo encontro fora incomum e da qual nos desfizemos com chamas à orla e uma colagem de um sem número de cartas despedaçadas. Sim, faltava alguma coisa, precisávamos de algo e encontramos um galho. Apenas devolvemos o que era dele, silenciosamente, e a todos os momentos. A disponibilidade de sentir o que tem que ser movido, precipitar-se na direção de extinguir a passividade, nas poucas oportunidades em que esse é o caso, a agilidade para notar a capacidade das pessoas e dos objetos que lhes forem pares, cúmplices, aproximar os pertencentes à mesma enfermaria, desse modo discreto, para mim, é a única forma de se mover. A escolha, se assim for, é o menor dos problemas. Ela quase se impõe. O único princípio é perceber que se os matizes estiverem confusos, indiscerníveis, adensado verde, por exemplo, no caso de floresta, não se pega ou se larga nada. E se for explícita a divisão entre as cores, como num descampado, é tempo de abandonar e seguir em frente.

11. A depuração do gosto acerca da continuidade entre realidade e sonho, pois bem, frustra as más intenções dissimulatórias. Ora, não é porque é regular que é sério ou por inverter as relações, que é inofensivo. Além disso o aprofundamento nos permite lidar sem pânico com a dupla presença.

12. Ela estava com os cabelos presos, imersa em alguma coisa que precisava fazer. Eu podia vê-la com calma, como se tivesse todo o tempo do mundo para fazê-lo. A minha sensação era de poder congelá-la para sempre e perceber cada detalhe. Conforme podia depurar o que meus olhos viam, a imagem feminina perdia em nitidez e se compunha com o que a cercava. O seu rosto eu nunca podia ver. Como se aquilo que ela tivesse nas mãos precisasse ser visto no seu modo de camuflagem, que de tão eficaz, avançava para seu braço exposto. Pode ser que ela fugisse em tinta. Uma bolsa de certo peso acabava, numa tira atravessada, por marcar a silhueta do seu corpo. Havia mais alguém perto dela.


13. Antes, de roupa de todos os dias, Nem envolta a vácuo, nem nada. Depois, apenas um roupão de tema japonês, Não pude deixar de pensar em Madame Butterfly. Borboleta, mariposa. Phalène, como quis Didi-Huberman. A sua cabeça como lanterna japonesa, A minha cabeça exposta, sem poder reconhecer o rosto, Seu vôo incessante dentro de si própria, apagamentos e acendimentos. Então, amassa o próprio dedo na janela e me o oferece, como se fosse possível beijá-lo. Pode ser que, se arrumássemos com fita vermelha, para me permitir não esquecer, Donde se me criaria a lembrança de tê-la visto com seu uniforme, um tanto alta demais para a idade, Antes do derradeiro aniversário / Mais todas aquelas camadas e mais camadas de bolo, para ser devorado pelos lados, até ser transformado em massa, asquerosa. A máscara insensível, com que me diz: - Nunca estive viva, Era apenas de borracha, Uma barreira colocada entre meu penúltimo fôlego / e o mundo.       

14. A composição das imagens é sempre a mesma, elas derivam das nossas percepções. Nisso as que reconhecemos, mas também os seus elementos. Por isso não se pode afastar das imagens o pictórico. Elas são também as cores das quais são feitas; mesmo quando abstratas. A dinamicidade é conseguida pela associação de tais imagens. Daí podemos fazer como queremos. As mais comuns são as por semelhança, amarrarmos o que se parece, por contiguidade, aproximarmos o comum no dessemelhante e por causalidade. Esta última costurando as imagens por antecedência e sucessão. As operações distintivas do onírico são a de concentrar o sentido de muitas imagens numa só, tornando tudo mais denso ou deslocá-lo de uma para outra. Se pode empreendê-las na vida desperta. O onírico, contudo, realiza-o sem muita repressão. Se é possível abrandar a inibição convencional de uma imagem, então é a sua dinâmica sonhadora que começa a surgir. A principal diferença entre a imagem desperta e a onírica é a velocidade e intensidade com que tais trânsitos são realizados. As imagens são colocadas em estado de vigília ou sonho. Não é absurdo supor que possamos estar dormindo e termos imagens despertas e o contrário, estarmos acordados e termos sonho.

15. Ali eu me sentia como um homem qualquer. Um homem respeitável qualquer. Acho que representante dessa classe de homens nos quais se pode confiar. Sabe?! Um daqueles que mal se percebe a existência e tudo depende deles. Eu era um motorista de ônibus, um porteiro. Alguém que de madrugada ficaria acordado, tomando conta de todos enquanto calmamente repousariam do dia. Ao mesmo tempo, sinto-me com uma consciência incomum de mim mesmo. Isso me parece estranho. Porque eu me observo sendo quem sou e mesmo esse se observa. A gravata me distingue, sempre preta. Ela me protege e me é imposta. Eu trabalho e acabo de enterrar alguém, sou eu, sempre, em eterno luto. Estou sob cerco e ninguém me vê.

16. Estava convencida do quão determinista era ter sido obrigada a costurar desde pequena em fábrica por série e ser visitada pela repetição dos panos mesmo quando dormindo. Pode ser que a corrente se dissipasse um pouco, afinal, era mesmo de uma linhagem longa, ainda que arcaica hoje em dia, de mulheres, sobretudo em casa, debruçadas sobre máquinas de costura / corpos para frente e para trás. Sabia que era o passado que se revolvia, quando não mais era visitada pelas peças marcadas, mas por estranhos seres torturados aberrantemente tingidos. A fuga começou quando a vida passou a ser desenhada em grafite numa tábula rasa de tecido esticado. Nesse tempo, dormir era deixar de existir. Se a casa podia ser reconhecida, nos móveis amontoados, então ainda se ressentia, por saber das afinidades disso e ser uma mulher de ontem. Ontem, adormeceu com a dobradura da tábula e sabia que tudo ali era da sua vida, e não pôde reconhecer nada.

17. A imagem pode estar em modo desperto ou não. Tratam-se de situações distintas, diferenças de estado. Elas podem se esconder uma da outra. Até mesmo, por vezes, aparecerem indistintas. Assim, quão mais delicado o gosto, menos indistinção. O sonho é um aceleramento. E para sabê-lo é preciso ter pontos de confronto. Não há uma regra de limite de velocidade. É-se sempre imagem, mais ou menos reprimida, num quadro. O sonho nos dias depende da paisagem na qual se insere. A paisagem é a própria alegoria do contemporâneo. Porque está tudo nela. Ela perde em eloqüência, porém ganha em completude. Nela se pode perceber o que se move, porque é esse deslocamento que serve de mostruário das associações e das vertigens. Nela se nota se as imagens foram capazes de afetar os demais objetos, de fazê-los tremer em suas acepções habituais ou levá-los ao desconhecido. Essa é a importância da dinâmica conceitual oferecida pela paisagem para o ambiente contemporâneo: está tudo ao mesmo tempo. A sua vocação é de acolhimento: dos retratos, dos avolumados escultóricos, das disponibilidades conceituais, das especificidades das formas de vida etc. Aos incautos parece que não acontece nada, que tudo se confunde. Ela é exigente e demanda delicadeza.


Cesar Kiraly, curador, professor de Estética e Teoria Política no Departamento de Ciência Política da UFF, editor da 7faces.



Catálogo Novíssimos 2017 | ISSUU




Artistas participantes:

Amador e Jr. Segurança Patrimonial LTDA - RJ
Ana de Almeida - RJ
Ayla Tavares - RJ
Betina Guedes - RS
Caio Pacela - RJ
Clara Carsalade - RJ
Felipe Seixas - SP
Jean Araújo - RJ
Juliana Borzino - RJ
Leandra Espírito Santo - RJ
Stella Margarita - RJ